Fui criado em São Paulo em uma família de músicos. Desde pequeno, aprendi a perceber o mundo de ouvido. A escuta musical está atenta aos sons e texturas, melodias e harmonias, mas também a outros efeitos que um instrumento pode causar: afetos, significados, memórias...
Na adolescência, no final dos anos 1990, me encantei pelas novas tecnologias e fui estudar design de produtos. Logo descobri que meu trabalho era escutar o desejo das pessoas — aquilo que fazia falta — para criar algo útil para elas.
Mas, na verdade, eu sempre quis ser escritor. E achava que entrar no teatro seria uma boa experiência nessa direção. Acabei me tornando ator, membro do grupo Antropofágica, onde aprendi outro tipo de escuta: sustentar o não-saber diante da fala do outro.
Me mudei para Porto Alegre, onde, depois de anos fazendo oficinas literárias, comecei a escrever. Diferente das outras linguagens, escrever é escutar a si mesmo no silêncio.
Em Porto Alegre também fiz uma segunda graduação em História da Arte na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Como na psicologia, também o historiador da arte é convidado a adotar uma abordagem que usará na análise das obras. Eu escolhi a psicanálise. Meu professor de pintura gostava muito de Jacques Lacan e eu passava mais tempo discutindo psicanálise com ele do que aprendendo a pintar.
Em paralelo a tudo isso, longos anos de análise pessoal tiveram um papel imprescindível. Eu sofria de uma série de sintomas que me acompanhavam há muito tempo, e em determinado momento de crise, pude lidar com minhas questões de outra maneira. Depois de um bom tempo de trabalho, os sintomas se diluíram e veio um desejo de levar aquele conhecimento teórico que eu aplicava na arte para outro campo: a clínica.
A vastidão da psicanálise me capturou. Eu já estava familiarizado com ideias fundamentais da saúde mental — como designer, tive a sorte de trabalhar com conteúdo dessa área por muitos anos — mas estudar Freud e Lacan era outra coisa. Eu tinha que lidar com filosofia, arte, matemática, linguística, literatura, sociologia... uma gama de áreas que se imbricavam numa bricolagem teórica interminável.
Voltando para São Paulo, continuei minhas leituras e passei a participar de cursos e seminários na USP, além do Fórum do Campo Lacaniano e da supervisão de analistas mais experientes. É assim a formação de todo psicanalista: análise pessoal, estudo teórico e supervisão — uma formação que, nós acreditamos, não pode terminar nunca.
Foi assim que cheguei à clínica psicanalítica, com uma sensibilidade e escuta treinadas nas artes e um gosto — confesso, meio nerd — pela complexidade da teoria. Continuo trabalhando com o mesmo material de sempre, a linguagem, só que agora mais interessado naquilo que escapa.